quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Confissão

O Tempo passou! Dois meses para ser mais precisa. Abandonaram-me! Eu sei, é um absurdo. Fiquei no meio de uma encruzilhada, melhor lugar para ser chutada. Porém de nenhuma direção veio uma caridosa alma para tirar-me da inércia. Por dias observei o vento movendo a poeira, que alegre voava no céu azul. A inveja me acometeu. Por que fui 'nascer' tão pesada, tão imóvel, tão bruta? O vento apenas me fragmenta, eu quero voar!

Hoje, para minha felicidade, um menino de pés sujos e descalços mirou-me, pegou-me delicadamente. Colocou-me numa borracha gasta de estilingue. Vi o céu, azul, convidativo. Voei! Nunca senti a liberdade tão próxima. Após o inicial êxtase, deparei-me com um pássaro azul. Já ele não me notava. Logo percebi o desfecho trágico, para ele, claro! 

Nosso choque foi violento. Caímos no chão abraçados. Chega a ser engraçado, a felicidade individual muitas vezes provem da desgraça alheia. O menino, feliz, seguiu seu rumo. Eu, feliz, alcei voo. E aquele pássaro, o que ganhou? 

Ganhou uma confissão...
"Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido -
que se esfacelou"¹
... em mim.


1 - Trecho extraído de Confissão, Carlos Drummond de Andrade